TEATRO DE PESQUISA = TEATRO DE NOVIDADE?

22 de maio de 2011

Luis Alberto Alonso em Ponte dos Ventos / Dinamarca

Luis Alberto Alonso em Ponte dos Ventos / Dinamarca

Por. Luis Alberto Alonso.

Oco Teatro Laboratório.

Está surgindo uma nova tendência teatral em Salvador, dedicada ou direcionada precisamente ao trabalho de grupo. Olhar para este fenômeno e direcionar esse olhar com curiosidade e delicadeza é no mínimo um gesto de humildade que os criadores mais conservadores -uso esta terminologia para poder focalizar esses realizadores, mas sem nenhuma pretensão de uso pejorativo- deveriam se deter a contemplar, pois nesses impulsos mais contemporâneos podem existir caminhos a serem trilhados para um rejuvenescimento do teatro que vivenciamos ainda hoje na capital soteropolitana.

Por outra parte, nós, grupos de pesquisa devemos ter um pouco de perspicácia de não querer transformar em novidade aquilo que de novo não tem nada. Quando decidimos encaminhar uma pesquisa devemos pensar o  quê de novo podemos alcançar que não resulte reiterativo, assim como viajar por esse universo do pesquisador sobretudo com ética e um mínimo de experiência que não nos faça esbarrar no pecado de nos apropriar de terminologias ou elementos já criados pretendendo divulgar como nossos.

Eugênio Barba para designar o que é pré-expressividade levou muitos anos em trabalho coletivo não somente com o Odin Teatret, mas também com os encontros organizados para tal finalidade nas chamadas ISTAs (International School of Theater Anthropology), Bob Wilson já existe no nosso meio faz muitos anos, Tadeusz Kantor quebrou como nenhum outro a visão da cena como um todo, dando um novo valor ao conceito de texto e arquitetônica teatral. Os movimentos de contra-cultura surgiram em Europa nos anos 60, em São Paulo nos anos 70 e assim por diante temos várias dúzias de exemplos a serem tratados, cada um na sua individualidade. Não quero dizer com isto que as ações de investigação teatral voltadas para esta área estejam esgotadas, o que pretendo esclarecer é que é necessário descobrir novos espaços de pesquisa para não ficar ancorados em discursos já trilhados e para tanto isso merece muitos anos na ação, quase em claustro, de beber das fontes já existentes. Muita paciência e não nos deixar levar pela presa da sociedade contemporânea que nos faz cometer o erro de querer mostrar que existimos e na maioria dos casos tudo fica a medias, sem uma pesquisa sólida e de anos de trabalho, aí vem o descrédito que muitos criadores tem com o teatro de pesquisa.  Por outro lado penso que eu somente posso estar decidido a passar um conhecimento quando eu tenho total certeza de que esse conhecimento está sentado sobre bases de pesquisas sólidas, não sobre apropriações instantâneas (faço uso de instantâneas fazendo um recorte de tempo, quero dizer curto tempo, colocando esse vivenciar instantâneo como algo que merece muitos anos de pesquisa). Não pretendamos ser inovadores com tudo aquilo que já está inovado, vamos inovar mesmo!.

Entendo também que cada processo histórico pertence àquela comunidade em transformação e por esta razão o movimento de teatro de pesquisa na Bahia não deve achar que está defasado ou fora do eixo. Sempre existirá um movimento de renovação não somente nas artes, mas em qualquer área de conhecimento e produção do ser humano, mas na atualidade através dos meios de comunicação e o desenvolvimento da informática, focalizando a internet como o seu melhor expoente, percebemos que a humanidade não se limita a espaços delimitados geográficamente, mas que é uma junção de todas essas comunidades como um todo. Então, como grande paradoxo à minha questão anterior  me apresenta uma nova pergunta: estamos realmente defasados no que se refere a bases de estudo nos grupos de pesquisa?

Por outro lado, retomando a questão ética  na hora da pesquisa, para citar um exemplo de apropriação desvirtuada de um treinamento que levou anos para se concretizar como um exercício importante dentro do trabalho do ator, vou me referir à Dança dos Ventos, dança ritmada de passo ternário que foi criada e desenvolvida no grupo internacional Ponte dos Ventos (é daí que surge o nome de Dança dos Ventos), dirigido por Iben Nagel Rasmussen, atriz do Odin Teatret, grupo que integram entre outros atores e pesquisadores internacionais, criadores brasileiros como Carlos Simioni (Lume Teatro-SP), Rafael Magalhães (Oco Teatro-BA) e Tatiana Cardoso (Universidade de Rio Grande do Sul) e do qual faço parte como membro permanente desde o ano 2005. Este treinamento tem sido pulverizado por várias partes do mundo, entre eles, pelos próprios criadores brasileiros que viajamos e ministramos cursos em várias universidades e grupos de pesquisa. O jeitinho, que não é somente brasileiro, faz com que as pessoas em cinco dias de curso se apropriem da dança, nada contra isso, mas uma vez se apropriando não dão uma continuidade com seriedade e no pior dos casos transformam a dança em algo aparentemente de novidade para depois pulverizar em novos encontros para outros grupos, dando o mesmo nome da dança que eles aprenderam nos seus inícios. Tenho sido fiel defensor desta política ética de cuidar daquilo que tem uma origem ainda viva, pois é nessa origem onde está o cerne e a força desse treinamento.

O que é gerado no trabalho do ator a partir da ação física e o que isto gera na  andaime teatral como um todo começou entre outros com Meyerhold (1874-1940) e Craig (1872-1966), e até hoje está sendo absorvido de uma maneira muito orgânica até pelo mesmo teatro que chamamos de convencional, este último talvez na procura de um teatro realista mais contemporâneo, me atreveria a dizer que o trabalho do ator a partir das ações físicas está entrando no terreno que podemos denominar de Fisiologia do Teatro. Então, o quê de novidade há nisto? Sou fiel observador destes princípios que chamamos renovadores, para tentar evitar aparentes descobrimentos na arte teatral em Salvador.

Quero lançar assim um abraço a todos os grupos de pesquisa de Salvador, sobretudo àqueles que partem da mesma escola canônica que nos cerca. Eles são um grande movimento para desnortear a visão daqueles que aprisionam a arte em sistemas quadrados pré-estabelecidos, sem chance para novas estruturas. Ainda que em movimentos muito jovens e incipientes são pequenas faíscas que aos poucos provocarão o incêndio que nos levará a Queimar a Casa[1].

[1] Referência ao nome da última produção teórica de Eugênio Barba.

Dia Internacional do Teatro – Andrea Mota entrevista Luis Alberto Alonso

21 de março de 2011

189272_1747127011296_1632444289_1605812_2523952_nANDREA.  O que motivou a seguir a carreira artística e de onde vem as suas inquietações artísticas?

ALONSO. Parece a velha história que todos fazemos da nossa vida, mas é certo, desde criança trabalhava em teatro com meus irmãos, fazendo imitação de um grupo espanhol que se chama Calatraba. Eles tinham um boneco hiper-realista que se movimentava por um sistema mecânico interno. Um maravilhoso dia o boneco quebra, eles jogam para um canto e olham para mim e falam: Olha! Aqui está o boneco! Então eu me converti em boneco. Eu fui um boneco, desde menino, já era um boneco e tinha que me movimentar como boneco, assim eles entravam comigo no palco nos braços e me sentavam nas pernas deles. Começava a tocar o duo Calatraba e tudo era uma grande diversão, mas muito sério, muito profissional, participávamos de festivais, encontros, trabalhávamos nos cabarés e ganhamos alguns prémios nacionais. Aí começou a minha paixão por aquele intercâmbio que era produzido entre a plateia e o palco. As pessoas me elogiavam e falavam que eu era um artista. Sei lá se era! Isso foi entrando na minha cabeça e de fato comecei a estudar teatro com 18 anos na Escola Nacional de Arte de Havana, Cuba. Depois fui para o Instituto Superior de Arte. Não parei até hoje e acho que não consigo parar. Abençoado boneco!

As minhas inquietações artísticas vêm do todo que vivo, de tudo aquilo que está entorno do meu viver e sentir como ser humano. Sou muito romântico, então a vida para mim tem que ter beleza, poesia. A minha inspiração é a beleza da vida, não gosto do scrach, do mau gosto no palco. Não tenho nada contra as peças de comedia mais popular, mas acho que nisso também tem que se investir em beleza. Daí, da beleza das coisas e dos sentimentos mais profundos do ser humano é que vem a minha inquietação. Ela está se voltando cada vez mais politica, pois a arte precisa dialogar mais com a sociedade.

ANDREA.  Sendo diretor do Grupo Oco Teatro Laboratório como se dá o processo criativo do grupo? Vocês partem de um texto ou de uma ideia geral?

ALONSO. Não existe grupo se todos seus integrantes não trabalham num sistema colaborativo, sobretudo num grupo de pesquisa como o nosso. Isso de grupo de criação coletiva foi uma denominação do século passado. Todo grupo de teatro deve ser um grupo de criação coletiva, claro. Grupo é aquele onde o diretor não chega com as coisas prontas e os atores se movimentam segundo os interesses do diretor, até porque no nosso processo de trabalho tento sempre que a maior parte do material que conformará o tecido do espetáculo saia dos próprios atores e suas vivências, do seu conhecimento e intelecto que deve ser cultivado diariamente com muito estudo, dedicação e seriedade.

Dizer que não partimos de um texto é negar o verdadeiro significado dessa palavra. No seu sentido lato texto é algo que informa, que disse, é tecido, é ideia, é uma costura de informações que pode vir de uma consecução de imagens. Agora, se você se  refere ao texto dramático, não. A gente não parte sempre do texto dramático. Muitas vezes é o último que aparece no nosso trabalho e inserido de forma a convergir com a partitura corporal previamente criada pelo ator.

Por outra parte, desde o ponto de vista dramatúrgico o texto é o último tecido que surge na criação, a combinação de todas as peças no palco, de todas as ações da montagem, sempre que sejamos capazes de entender ações como as relações entre atores, entre cada ator consigo mesmo, entre os atores e o texto dramático, o ator com a luz, o diálogo da luz com o cenário, o ator com os elementos, etc. Esse entendimento descobri com Eugénio Barba e a minha delicada percepção do palco.

ANDREA. Você entende o teatro como um trabalho ritualistico?

ALONSO. Olha, no caso de grupo, o ato de se reunir dia após dia já é um ato ritual, já é uma visita diária ao nosso sagrado oficio. Talvez não seja necessário, nos tempos atuais, essa sacralização, já que o teatro se retroalimenta não só do convívio com o subjetivo ou os estudos isolados do ator, ele também se constrói das partes da vida cotidiana, do saber do dia a dia, do conhecimento tácito. Mas no geral o teatro tem esse valor, sim, esse fazer e desfazer no ritual, no sagrado.

Há outras discussões que eu entravo na atualidade com este significado. Separamos muito as manifestações artísticas quando na verdade elas não estão separadas. Eu não estou falando de interdisciplinaridade estou me referindo a zonas de convergência entre aquelas artes que foram separadas, acho eu, para seu estudo. Eu não consigo achar diferença entre teatro e dança e música, etc. Eu posso criar um concerto com meus atores e não necessariamente estar inserido dentro de formas pré-estabelecidas do que é música. Posso criar uma tela no palco. O que me diferencia nessas denominações? São os instrumentos que uso, mas um artista plástico não pode dizer que a foto de cartaz de Os Sonhos de Segismundo não é uma tela de alto valor  plástico e conceitual, assim como muitas outras imagens do espetáculo. No sagrado, no antigo ritual não havia diferença, nós colocamos nomes  nisso.

ANDREA.  Existe algum grupo, ator ou atriz que você tenha como referência?

ALONSO. Estrangeiros ou nacionais? Rsrs!

Bom, a minha grande escola foi um importantíssimo grupo cubano de teatro, Teatro Buendia, de Cuba, meus passos me levaram a outro grupo que tem reformulado o teatro no mundo, o Odin Teatret, onde faço um trabalho anual com uma das suas atrizes fundadoras, através do grupo internacional Ponte dos Ventos. Admiro muito referências que não estão mais entre nós e que teve o prazer de poder ver pessoalmente e compartilhar, Kazuo Ohno, Pina Bausch. Sou delicado observador de Eugénio Barba. Na Bahia admiro muito o trabalho de Luiz Marfuz quando enveredado pela pesquisa e a procura de novas formas. E admiro todos aqueles que sejam capazes nesse mundo globalizado e rápido de tentar conformar um grupo teatral, um coletivo, o qual precisa de muita garra e desprendimento de energia, de pensar não somente em você como criador, mas também no outro como parceiro. Admiro diretores de oficio, não de cadeira: Vai você entender!

ANDREA. Vc se considera um encenador?

ALONSO. Sou um artista no seu amplo sentido da palavra. Dizer encenador hoje é pensar naquela pessoa que só faz sentar numa cadeira e dirigir. Boto a mão na massa, costuro figurino, faço parte de forma ativa na construção dos cenários, das partituras do ator, da iluminação, faço trilha sonora, escrevo textos. Acho que esse nome cabe a todos os que conformam um grupo, todos são encenadores, porque trabalham em conjunto para construir algo para o palco, algo que será encenado, apresentado.

ANDREA. Vc é o Diretor e criador do FIlteBahia- Festival Latino Americano de Teatro da Bahia, na sua opnião qual a verdadeira importância dos festivais para a classe teatral e o publico?

ALONSO. A troca. Acho que esse é o verdadeiro sentido de um Festival. Trazer produções diferentes, de estilos diferentes ao que se faz na Bahia. Confrontar com uma outra forma de ver o universo teatral. Depois do Festival há grupos que estão realizando demonstrações de trabalho, isso é legal! E não quer dizer que eles talvez não tenham pensado antes, mas depois do Filte com a proposta das demonstrações de trabalho tem incentivado uma galera a dar seguimento a esta linha, isso é belo. Outros grupos baianos estão viajando porque o Filte abriu essas portas. Então, Festival só tem a ganhar no contexto teatral. Nos faz saber e sentir que o que fazemos não é o único que existe, que há outras formas de pensar o teatro.

ANDREA. O que Você tem a dizer sobre as leis de incentivo na Bahia? Elas funcionam?

ALONSO. Na Bahia só temos a Lei do Faz Cultura, que funciona para aqueles que podem e conseguem captar recursos, a Demanda Espontânea do Fundo de Cultura, e os editais da Fundação Cultural do Estado da Bahia-FUNCEB. Isso de editais penso que é um paliativo, um band-aid numa ferida que deve ser provisória. Deve ser criada uma Lei de Incentivo ao Teatro, no nosso caso é necessário. Não conseguimos ter uma manutenção constante. É a história sem fim. O Mito de Sísifo. Depois que chega ao cume com a pedra vê ela cair e rodar e de novo tem que descer e empurrar ela novamente até chegar ao topo da montanha e assim sucessivamente, parece que o Mito é, como parábola discursiva, o nosso castigo por sermos artistas e desafiar aos deuses. Piada? Não, realidade total!.  Encontro todos os dias atores na rua, nos eventos, nas estreias e o primeiro que falam é: Quando vai dirigir algo para me convidar? Os atores estão precisando trabalhar, os diretores estamos precisando de Leis mais consistentes que nos permitam dedicarmo-nos ao teatro sem grandes complicações. 80 % do meu dia e da minha vida eu dedico aos editais, às Leis de Incentivo. Isso é um crime com o universo do criador. Porque achar um produtor que se interessar pela criação de projetos sem saber se isso vai dar certo é muito difícil. Sou contra os editais se eles continuarem sendo a única via de manutenção dos grupos, alem de que existem nomes do teatro que acho que não precisam ficar concorrendo em editais, a carreira artística deles está provada e isso merece um respeito.

ANDREA. Como Você avalia a formação de público na Bahia?

ALONSO. Olha, eu não formei parte do processo histórico teatral que a Bahia tem vivenciado durante os últimos 50 anos, nem sou herdeiro desta tradição, então é muito difícil avaliar assim, mas o que eu tenho vivido durante estes 8 anos é uma grande instabilidade. Agora a coisa está melhor, mas o que é estar melhor? Dizer que ganhamos um edital e só receber um ou dois anos depois? A gente não se planifica? Eu não posso avaliar público se não consigo criar um sistema sólido de produção artística, se essa produção está constantemente atrelada ao ir e vir de políticos e interesses de poucos. O público gosta de teatro e quem nunca foi quando vá fica encantado, fica alucinado, porque a nossa arte tem esse poder.

ANDREA. E quanto as escolas, acha que poderiam participar mais dessa formação? Como?

ALONSO. As escolas? Quais escolas? O ensino básico ou o ensino de artes. As escolas de arte já cumprem seu papel. As escolas de ensino fundamental se queixam constantemente dos problemas com a educação no país, como vamos a esperar que o teatro seja algo de valor para elas? Agora, uma vez a educação sendo estruturada de boa qualidade penso que teremos espaço para formar plateia desde bem cedo, desde pequenos. Criando vínculos entre educação e cultura. Há em Cuba uma experiência muito bacana que não sei se é mantida até hoje, as Casas de Cultura, elas trabalham em associação com as escolas. O aluno no turno que não tem aulas tem que escolher entre arte ou esporte. A parte de arte pertence às Casas de Cultura que tem instrutores e professores de todas as manifestações artísticas, é de uma riqueza inquestionável, porque esse ser humano está se formando como um ser social, íntegro, em sua totalidade.

ANDREA.   Que conselho vc daria para quem quer seguir a carreira teatral?

ALONSO. Nunca perder os sonhos. Acreditar naquilo que impulsiona ele como criador e ter muita garra para seguir andando no caminho escolhido, este nosso caminho tão pedregoso mas fascinante.

Os Clássicos no Nordeste Comigo

24 de junho de 2010

Por Andrea Mota

Depois de três cidades, seis apresentações, sendo que três de cada espetáculo ( Branca e Os Sonhos de Segismundo) Gostaria de compartilhar sentimentos e sensações desses momentos.

A primeira: João Pessoa cidade linda de pessoas tão acolhedoras, chegamos não só para o projeto Clássicos no Nordeste, estávamos também participando da 2ª Mostra de Teatro de Rua e isso nos possibilitou o encontro com outros grupos já conhecidos e queridos como Bagaceira e Clowns de Shakespeare, assim como conhecer o grupo Sertão Teatro.

Chegar foi um pouco estranho, não estávamos satisfeitos uns com os outros, pois alguns acertos não estavam sendo cumpridos durante a viajem. Felizmente antes de chegar sentamos a conversar e roupa lavada, arregaçamos as mangas e começamos a trabalhar, parte do grupo estava trabalhando nas oficinas alguns dias antes Luis (diretor) TECENDO PARTITURAS,Rafa (produtor e ator) ENERGIA E EXPRESSIVIDADE e Diana (atriz) CLOWN:CONSTRUÇÃO DE UM CORPO CÔMICO ATRAVÉS DA MUSICALIDADE. O restante do grupo foi depois, no entanto não se deixa de trabalhar por não ter viajado junto, sempre tem umas coisinhas pra resolver antes de ir. Para mim a Paraíba foi como uma estréia. Havíamos feito algumas viagens, mas, estar em cidades do Nordeste era muito importante.

Rafa,Dea e LuisRafa, eu e Luis

No primeiro dia fomos bem recebidos por Augusta (Sertão Teatro) e passeamos com três pessoas lindas no final da tarde: Galego e Isadora do Sertão Teatro e Eduardo professor da Universidade Federal da Paraíba. Fomos conhecer as praias, orla limpa e bem cuidada, a Ponta de Seixas, ponto mais próximo do Brasil com a nossa “Mama África” que um dia rompeu o cordão e nos deixou separar por um oceano.

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Tive tempo para ver a finalização das oficinas do Oco e é sempre bom observar de fora, o que já foi experimentado também no grupo, em outros atores, ver como trabalham os instrutores e perceber as reações dos participantes nessas vivências. Deu tempo de filmar um pouquinho.

O teatro, muito precário nos preocupou um pouco, será que iria suportar a iluminação de Segismundo? O palco estava praticamente ruindo na coxia, remendamos com placas de madeira e no final das contas, graças ao trabalho de muitos tudo deu certo. Destacando nesse momento da iluminação: Rita nossa iluminadora incansável que só para depois que tudo está pronto, Galego e Virgilio. As apresentações foram um sucesso, teatro cheio os dois dias.

Conversas, conhecer o Sertão Teatro grupo lindo, novo, cheio de vontade de trabalhar e pesquisar, encontrar os Clowns e o Bagaceira que por sinal comemora dez anos me faz feliz.Fiz a oficina do Bagaceira A CONSTRUÇÃO DO CORPO EXTRA COTIDIANO e percebi que no treino deles há muitas coisas parecidas, princípios, só que trabalhados de forma diferente, isso me fez perceber coisas do nosso próprio treinamento com mais clareza.

Entre os espetáculos que assisti na mostra destaco Esparrela do ator veterano Fernando Teixeira. Um cenário completamente despido, uma pequena alfaia um ator sem maquiagem ou figurinos elaborados, me parecia ali com a alma exposta ao narrar uma história com a pespectiva de um urubu. Enquanto ria refletia sobre a vida, sobre o teatro, via um homem ali, calejado por essa arte.

Com a companhia de Diana passei pelas ruas de João Pessoa e pude observar o povo, a cidade, o centro histórico com seus casarões e igrejas, a movimentação de vida em uma cidade verde, pude ver também, quando saí à noite que como Salvador, a cidade tem muitos problemas sociais.

No dia da demonstração de trabalho sala lotada, muitas perguntas de estudantes e professores, atores Nas perguntas que surgem de outros são afloradas perguntas que ainda são minhas, em oito anos de contato com a dança dos ventos, acreditando que é preciso cada vez mais mergulhar fundo nesse universo. Também percebo que algumas pessoas fazem perguntas que criticam por usarmos o treinamento que foi criado em outro grupo (ver Pontes dos ventos), sem saber a história, pois Rafael Magalhães é Fundador e criador também desse processo. Quanto a nós a demonstração não é uma aula, nem uma exibição de virtuosismo e sim o compartilhar do caminho que estamos traçando em nossas buscas.

Demonstração de trabalho do Bagaceira, compartilhando processos e experiências, a história deles, erros e acertos, acho esse grupo muito generoso e talentoso, para mim foi uma tarde super importante na Paraíba.

dea 3Eu, Diana, Cristina Streva(diretora de Ser Tão teatro) Devora e carla

A Segunda: Maceió: Viagem bem mais tranqüila, rápida. Recebidos Por Tiago o nosso querido músico (O Crucru) que foi o caminho todo dizendo que o hotel era horrível, somente Rita não acreditou e o hotel era realmente muito bonito imitando um navio. Até chegar no hotel o caminho não me animava muito, mas ao chegar a linda orla, na praia de Pajussara, meus olhos sorriam pelo que viam.

dea 4Nossa hospedagem bem merecida!

dea 5Praia de Pajuçara

No Hotel depois de algumas readaptações de quarto, descansamos e a noite me assustei com tanta fartura nos prantos do jantar sem resistir às tentações me entreguei as gulodices alagoanas, para depois dos pecados cometidos lembrar que preciso e muito emagrecer. Mas prato cheio parece ser costume dessas três cidades que visitamos diferente daqui, lá quando dizem come bem duas pessoas pode multiplicar rrsrs.

No segundo dia bem cedinho hora de ajustar e arrumar tudo, o teatro do Sesi estava localizado quinze minutos de caminhada a beira mar e fomos arrumar o camarim e passar as roupas como de costume, mas adiamos para a tarde porque teríamos que passar no meio da oficina de Diana e isso poderia atrapalhar. Fui então junto com Carla dar uma volta no centro histórico. Visitamos o Museu de Áudio Visual e me diverti demais ao ver os titios dos computadores de hoje e outros aparelhos que já foram alta tecnologia em seus tempos e hoje estão extintos ou evoluídos, verdadeiros dinossauros tecnológicos.

Achei a produção dessa etapa bem falha, Rafael tendo que resolver coisas que deveria ter encontrado prontas. Na demonstração de trabalho o local estava inadequado, sujo, barulhento. Trocamos por uma sala menor e mais limpa. A demonstração foi na Universidade Federal de Alagoas em uma sala de dança que ficou cheia de estudantes e professores, foi justamente nesta sala que tive contato com uma coisa que eu ainda não tinha tido contato em minha vida de atriz e me parece uma característica das pessoas da cidade: A tietagem; depois da demonstração pessoas pediam autógrafos, queriam tirar muitas fotos, autógrafos, observei divertida e com estranhamento.

O teatro parecia ser muito bom, mas tinha problemas de microfonia que quase faz a apresentação ser cancelada e isso causou um mal estar muito grande entre o grupo, Aliás Maceió não foi uma etapa tranqüila, diretor demonstrava sinais de cansaço, falta de paciência e mais do que ninguém, em toda sua humanidade, o diretor é a pessoa de maior influência no grupo, seu humor interfere diretamente no humor das outras pessoas.Acho que apesar do momento ser de trabalho forte é necessário afastar um pouco para recarregar as energias, contar até mil.

O Dois espetáculos aconteceram assim mesmo com os problemas de som com o teatro lotado. Tive uma grata surpresa depois da apresentação de Segismundo: Minha professora de dança foi assistir o espetáculo: Nadir Nóbrega: Bailarina, Professora da Universidade e quase doutora da qual só tenho boas lembranças, uma das culpadas de hoje esta pessoa que escreve ter essa vida feliz de almocreve artista.

Guardar os elementos ainda é para mim um momento de stress, pois é tudo muito rápido e as pessoas ainda teimam em não atender ao meu pedido de só levar a bagagem depois de eu ter conferido e liberado. Mas felizmente até agora está tudo certo. Principalmente por ter sempre junto Rafael e Mário que sabem organizar as coisas em seu devido lugar como ninguém.

Voltamos tensos e no intervalo da viagem aqui em Lauro de Freitas fizemos uma avaliação parcial, ufa! Melhorou cem por cento o clima, mesmo tendo coisas que só o tempo irá corrigir e adequar.

A Terceira: Teresina. Foi a cidade que mais gostei. Creio que por ser a mais diferente. O ruim era que o teatro ficava longe do hotel.

Chegamos arrumamos as coisas no teatro, á tarde fizemos a demonstração de trabalho em uma escola técnica de teatro, com muitos comentários que nos fazem refletir.

Sábado dia de apresentação de Segismundo, iríamos ensaiar de tarde então a manhã estava livre, fomos eu Diana, Mário e Tiago para o encontro dos rios Poti e Parnaíba.

Piaui 013Mario, Diana e Tiago.

Piaui 033Tiago, Diana e Eu ao longe

Piaui 043Piaui 045Cerâmica

Apresentação de Segismundo aconteceu tranqüila, domingo manhã livre, então saí com Mario e Thiago, fomos ao Museu de História do Piauí, onde fiquei sabendo da parte triste da história dos índios dizimados do estado, mas também pude ver móveis objetos e artefatos arqueológicos de milhões de anos.

Piaui 166Catedral

Piaui 168Árvore da Macrofauna

Apresentação de Branca foi tranqüila também. Arrumamos tudo, para voltar de madrugada.

Jantamos confraternização, voltamos. Cansados. Tudo isso acredito que amadureceu um pouco o grupo, os acertos, dificuldades, concessões, discussões, todos os rostos e paisagens que vimos alguma coisa devagarinho está mudando no grupo. Que venham outros projetos assim. Obrigada a todos que compartilharam dessa aventura.

As cidades: é necessário transitá-las e vivê-las para traduzi-las

24 de junho de 2010

Por Diana Ramos

Ainda hoje estive no Facebook, alimentando meus relacionamentos a distancia, ou seja, fazendo amigos para que, quem sabe num futuro, possamos intercambiar conhecimentos e visitar suas cidades sem preocupar-me com hospedagens. Acho que todo viajante almeja conhecer muito e pagar pouco. Infelizmente, este pensamento econômico se deve ainda a questões financeiras insuficientes para carimbar passaportes quando a vontade simplesmente vier. Fui surpreendida por um contato de um rapaz argentino me perguntando sobre o Brasil, e me dizia: que coisa é o Brasil não é, então tudo é festa e podemos ter diversão a qualquer hora. Fiquei em dúvida sobre o que responder, verdade ou mentira? Mas lhe disse apenas que era mais fruto da imaginação coletiva em relação ao Brasil do que a realidade, e que somos um país de pessoas sérias. E novamente o argentino me pergunta se estamos habituados a fazer sexo a três e freqüentar orgias, que é coisa normal para nós. Respirei fundo e novamente lhe respondi que não vivemos o carnaval a vida toda, o ano todo, diferente do que pensam por aí. Que temos muitos problemas sociais, mas também muita seriedade e, ao contrário do que pensam pelo mundo, não vivemos entre macacos nas florestas com roupas carnavalescas enfiadas em nossa dignidade (na verdade parei entre macacos nas florestas). E que só se conhece um país quando se vai até ele. Todo o resto são especulações. Ainda assim, saindo em defesa do Brasil, me vi numa situação ingênua, defender uma pátria que de si mesmo si ri e deixa que a vejam pelo pior que tem. Os méritos de um país se divulgam em proporções muito menores do que suas mazelas. Esta provocação argentina que impeliu a escrever sobre as cidades por onde estive recentemente (nós do Oco Teatro estivemos em viagens pelas cidades de João Pessoa – PB, Maceió – AL e Teresina – PI). Lembro-me de, na última viagem, em Teresina, ter me aventurado a pegar um ônibus e fazer um circular pela cidade de Timon, cidade maranhense em fronteira com Teresina e divididas pelo Rio Parnaíba. Neste breve tour de ônibus coletivo, pensei sobre a pouca atrativa cidade de Timon: há cidades para viver, há cidades para desejar viver e há cidades que apenas são parte do filme que gravamos na cabeça por tê-las passado sem compromisso nem vestígios. E se perguntarem se conheci estas cidades lhes direi que não, apenas estive entre elas pelo curtíssimo período de uma semana. É impossível dizer que se conhece uma cidade quando se está hospedado num belo hotel, num bairro central com pessoas à sua disposição para facilitar o trabalho da qual você está ali para fazer. Posso relatar aqui todo o prazer destas vivências, mas não posso descrever verdadeiramente estas cidades.              A minha impressão de viajante e artista me fez perceber as cidades de maneira mais sensível, o que não quer dizer que tenha verdades absolutas sobre seu povo ou cultura.

O mais impressionante sobre elas é que, depois de um tempo parece que os rostos se tornam conhecidos, como se encontrássemos em suas ruas, alguém de rosto familiar, talvez pela necessidade de sentir que somos acolhidos por aqueles do qual nunca vimos antes. As cidades têm sotaques confortáveis, gírias particulares, timbres característicos e vozes que, de ponta a ponta do país clamam pelas mesmas coisas: direitos, cultura, lazer, dignidade para seu povo e para seus artistas. Transitar pelo teatro feito nas cidades nos diz de que valor se dá a arte e àqueles que a fazem. A carência de leis de incentivo, editais, propostas governamentais e empresas privadas dispostas a patrocinar a cultura e especificamente o teatro ganha contornos muito parecidos em toda parte, me parece que ainda mais nos nossos pobres Estados nordestinos. A desigualdade social é latente e nos espera desde a rodoviária, aeroporto ou nas portas dos hotéis à pedida de cafés, almoços e jantas. E, de quem é a responsabilidade? Qual a função do artista e de seu teatro?

É preciso aprender a não subjugar o conhecimento presente nos outros que acreditamos que, por estarem em cidades em que a mídia não dá importância, situadas fora dos eixos televisivos ou de menos representatividade nas regiões altas dos pontos cardeais há mais ignorância ou, somos nós “os de fora” aqueles que trazem o novo. Ledo engano, o conhecimento produzido nestas cidades é muito particular e ao mesmo tempo universal, é preciso transitá-las e vivê-las para traduzi-las.

“No interior da grande cidade de todos está a cidade pequena em que realmente vivemos.” (José Saramago)

Viagens-Clássicos Teatrais no Nordeste

21 de junho de 2010

Por Carla Teixeira

Bem!!! Descrever essas passagens na vida é tão simples como vivê-las. E foi assim que eu me senti nesta viagem, por Paraíba, Alagoas e Piauí, juntamente com Oco Teatro pude reunir um misto de coisas nesta passagem pelo Nordeste como : O trabalho, conhecimento, cultura, esclarecimento, vivência, tristeza, alegria, mas sim paixão em viver aqueles momentos, como um toque de mágica, algumas coisas se dissipam e ficam  a experiência para uma vida toda.

A cada lugar que eu chegava, meus olhos brilhavam, e estava lá, com minha câmera registrando tudo. Como era importante para mim aquele momento e cada viagem. “Os trabalhos apresentados pelo Oco, os hotéis, as comidas, os lugares etc… Em João Pessoa, tudo foi tão caloroso, quantos encontros com bons grupos. E o Espetáculo Os Sonhos de Segismundo e Branca foram muito bem apresentados nos três Estados, apesar de alguns problemas técnicos com espaço cênico, som, etc.

Na minha opinião destaque “Os Sonhos de Segismundo” em Paraíba/João pessoa e “Branca” em Piauí/Teresina.

Quero agradecer a todos os meus companheiros do OcoTeatroLaboratório por esses momentos.

Impressões de um viajante

21 de junho de 2010

Por Tiago Chaves

Quando ainda estava apenas nos planos de se fazer as viagens eu estava bastante empolgado em poder sair da minha cidade e ir percorrer outros lugares observando as maneiras, os jeitos e a cultura de outros estados que nos são ligados pela região nordeste. Não sabia bem ao certo o que encontrar, que esperar. Por vezes pensava que seriam lugares menos desenvolvidos culturalmente – admito que era um pensamento preconceituoso e procurava logo dissipar essas idéias. Era preciso viver logo a experiência

O primeiro estado foi a Paraíba, na cidade de João Pessoa. Uma cidade que me tem algumas lembranças por ocasião de uma visita há quase 10 anos atrás. Chegamos para integrar o nosso projeto de circulação junto à Mostra de Grupo promovida pelo grupo Ser Tão Teatro. Passamos os primeiros três dias realizando oficinas. A receptividade era boa por parte dos participantes, que mostravam disponibilidade e boa técnica. As apresentações são marcadas pela falta de estrutura física. O lugar, apesar de ser bem interessante quanto espaço, não fornecia um teatro bem equipado e em boas condições – nada que não pudesse ser resolvido. Foram apresentações com um excelente publico, que interagia com o espetáculo.

Logo depois foram momentos quase livres de assistir espetáculos de grupos conhecidos nosso como o Bagaceira, do Ceará, e o Clowns de Shakespeare do Rio Grande do Norte. Fizemos uma demonstração de trabalho para uma platéia de mais ou menos cinqüenta pessoas; estudantes, artistas. Houve debate e discussão bem aproveitado. Voltamos para Salvador com essa etapa cumprida e com mais amigos na lista.

Rumamos para Maceió. Logo começamos a nos interar sobre as condições do teatro no estado de Alagoas. Ficamos localizados na orla da cidade, o que de certa forma nos colocou no limite entre trabalho e descanso, sem que um atrapalhasse o outro. A localização do teatro era perto do hotel. A impressão que eu tinha dos participantes das oficinas era de pessoas com vontade de participar, aprender – dando uma imagem de que a cidade não oferecia tanta formação técnica aos profissionais do local. Não tivemos oportunidade de ver qualquer mostra de trabalho de algum grupo local. Quando fomos fazer a demostração de trabalho, porém, pude sentir que a universidade tinha uma atuação interessante na formação da classe artística da cidade. Foi uma demonstração marcada pela mudança de sala por falta de condições – mas também por discussão de debate bem atuante.

O teatro do SESI, apesar de bem estruturado, não tinha os equipamentos adequados e a produção foi obrigada a alugar iluminação. Os dois espetáculo tiveram um público (A meu ver!) razoável. A apresentação de Segismundo foi bem empolgante e senti que rolava uma boa energia. A mesma sensação em Branca – já que nessa temporada eu fazia parte do coro cantando as músicas. O fato de ter de arrumar todo o material com pressa para viajar de madrugada foi um ponto que me deixou um pouco cansado.

O Piauí esperava com um sabor de saudade. Era uma viagem especial e espera por mim, que tenho no estado uma forte ligação, apesar de ser a primeira vez a visitá-lo. Não sabia bem ao certo o que esperar, mas esperava sabendo que nada podia derrubar a ligação antropológica que tenho com Teresina, já que minha mãe nasceu no Piauí. Mesmo indo pela primeira vez era como se retornasse a um lugar conhecido pelas lembranças contada pela minha mãe. Olhava o lugar e as pessoas procurando reconhecer traços que me ligavam e me levavam a estar ali. Chegamos no meio da noite de segunda-feira e na manhã de terça já estávamos em pé para começar a executar o projeto. O publico participante não foi tão participativo como nos outros estados. Não esperava tanto, nem tão pouco. Mas Piauí me surpreendeu pela estrutura cultural que a cidade oferece. Muito museu, muito centro de artesanato, muito lugar onde você pode observar uma arte – uma escultura ali, outro desenho aqui.

O teatro ficava numa parte afastada do centro – bem afasta – num bairro chamado Dirceu. A principio me senti incomodado por não estar bem localizado. Espera estar no centro da cidade onde o acesso seria mais fácil e pudesse estar no centro das atenções das atividades da cidade. Mas depois senti que a periferia merece também uma oportunidade de ver e ter acesso a um teatro de qualidade. Tá certo que não encheu. Tá certo que foi bem vazio. Mas se dentre as 10 pessoas que assistiram teve (talvez) 2 ou 3 pessoas do bairro que foram por que teve acesso fácil ao espetáculo, sem ter que se deslocar ao centro da cidade para poder assistir e participar de uma boa programação cultural – então viva!! Acho importante.

Antes teve a demonstração de trabalho. Um detalhe a parte. Foi uma demonstração marcada pelo cansaço, calor e energia. A Dança dos Objetos foi tão forte – uma improvisação marcada pela viagem sonora coletiva e pela jogo do corpo com o objeto. Minhas mãos doíam ao fim tamanha era a força e vontade em seguir livremente dentro da proposta – foi algo bem diferente do que estava realizando nas outras demonstrações – falando em termos de sensações.

Enfim, era hora de arrumar as malas e se preparar pra voltar

Além das experiências de ganhos, o projeto de circulação foi marcada pela experiência de perdas.

Na volta de João Pessoa recebi a noticia da morte do Poeta Damário Dacruz. Um vazio para quem na porta da geladeira tem um pôster com uma poesia dele, relembrando todo dia a beleza em apenas estar ali presente junta a pessoas tão queridas.

Quando voltamos de Maceió lemos a notícia do falecimento de Wilson Melo. Um mito pela simpatia e bom humor no teatro baiano. Participei algumas vezes de rodas de conversas e embriagues em que estava o grande Mestre - que ria e conversava comigo, me contando histórias e tomando toda a atenção da festa.

O Piauí foi uma viagem de reflexão e estudo. Fui lendo alguns textos para pesquisa de um trabalho. Ainda que não tenha levado como autor, o Mestre Saramago era sempre lembrado e discutido, rindo até em perceber o quanto ele nos coloca a prova dos seus questionamentos e certezas. E então o mestre nos deixa sós. Senti a sua morte como se sente a morte de um ente querido. Me resguardei na saudade de saber que a polêmica e genialidade está limitada pelo nascer e morrer do velho escritor. Não fui tão bom leitor de Saramago – Mas tenho na sua figura uma fonte de certeza da quebra de paradigmas e formas que vejo como necessárias ao meu mundo. Ao mundo em que estou atualmente.

Ao ler a notícia pela internet numa sexta-feira meio nublada, depois do choque falei em voz alta no escritório de meu pai – “Adeus José!”

Projeto Clássicos no Nordeste + Biscoitos da Gol

21 de junho de 2010

biscoito-hot-presunto

Por Mario Cesar Alves

Fiquei muito feliz por este projeto,onde nos aproximou de grupos que fazem teatro por este mundo nordestino.A acolhida,o carinho,a atenção que nos foi dispensado deixou-nos completamente a vontade.Começamos a partir daquele instante um relacionamento verdadeiro com pessoas diferentes e iguais:Em todos os estados que nos apresentamos,recebemos um tratamento diferenciado e especial,os espetáculos vistos entre os grupos em JP,senti que ali estava selado o pacto da união nordestina de teatro.Ainda tive a belasupresa em receber um saboroso bolo de aniversario e presentes,”obrigado galera”nomais ganhamos muito com as viagens,que nos deu além de muitos amigos, também a oportunidade de conhecermos trabalhos de outros grupos que passam as mesmas dificuldades que passamos, já a produção foi,impecável, a alimentação, a hospedagem.As lembranças que compramos,os teatros,as belas cidades, os cachês,o povo acolhedor simpático, os biscoitos com suco da GOL e o grupo alcançando mais um grau de unidade,como a tendência é melhorar, estamos amadurecendo aos pouco”BRAVO”A experiência foi ilimitada pois estivemos em museus,praias,mercados de artesanatos,bons teatros e o prazer gostoso deste povo maravilhoso “NORDESTINOS”

Instrumentos da Arte

5 de junho de 2010

Por Luis Alberto Alonso

Podemos fazer teatro através das Artes Plásticas? ou Podemos fazer Artes Plásticas com os instrumentos do teatro? O que me diferencia de um artista plástico se eu sou capaz de construir no palco uma tela, uma instalação, uma escultura, uma gravura? Talvez me diferenciem os instrumentos ou o percurso que eu traço para chegar ao meu resultado? ou as formas que denominam, de maneira pre-estabelecida,  cada uma das artes? Várias são as perguntas assim como múltiplas as respostas. Mas o que sim fica claro para nós é que “As artes se parecem em seus princípios (…)” falava Decroux; só que não concordo com o mestre francês quando culmina a frase dizendo “(…) não em suas obras”. Podemos perceber através de um olhar despossuído de nomenclaturas que lhe foram cedidas às artes para seu frutífero estudo que todas as artes parecem, sim, na nossa contemporaneidade, umas com as outras, nos seus princípios e nas suas obras. Bastaria esse olhar se deixar levar mais pelos sentidos, do que pelas formas e pelas técnicas.

Da Vinci – Work in Progress

11 de maio de 2010

Por Luis Alberto Alonso.

Da Vinci Wok  in Progress foi uma Demonstração de Trabalho que se converteu numa intervenção performática criada pelo grupo Oco teatro Laboratorio, a qual parte da pesquisa da obra de arte de Leonardo Da Vinci, que junto a outras fontes inteletuais e de vivencias foram tecendo partituras com a técnica de silêncio orgânico. Cada ator selecionou uma tela de Da Vinci e a partir da sua seleção criou uma fábula –considerando o termo aristotélico- com principio, meio e fim, uma históia bem contada. Sobre essa historia foi feito um analise que levou finalmente a varias montagens onde cada ator era responável por cada uma delas. Desse trabalho surgiu a necessidade de costurar as partituras e operar em uma peformance de intervenção e de palco.

Work in Progress é a junção das experiências e universos de oito atores num processo de trabalho. É urgar no interior do Ator-Poeta, tirando dele suas essencias e conflitos e aquilo que ele tem vontade de expressar. Un ator pensa em Jesus Cristo quando outro sonha em ter asas para voar. Uma atriz se aferra à ilusão de um amor eterno, entanto outra clama, desde sua fenda crítica, mais justiça na sociedade que lhe tocou viver. Seres estranhos de negro e prata passeiam pelas ruas com guardachuvas gigantes, na procura de um não sabemos o que da vida, um quadro surreal no meio de um universo tecnócrata onde o ser humano tem-se coisificado.

Nossa Dramaturgia

10 de maio de 2010

Por Luis Alberto Alonso.

Texto é Tecido, e não é o texto escrito quem nos deve guiar na construção de um espetáculo e sim o texto que nasce da conjunção, elaboração e costura das relações que se denominam ações entre um ator e outro, o ator com seu corpo, o ator com a música, o ator com a iluminação, com os objetos, com o palco, com o público, com o verbo.  O ator deve criar a sua dança pessoal, pois as velhas fábulas explodiram. Precisamos criar uma nova estrutura para nos reinventar uma nova fábula no teatro.