
training oco teatro / foto. Fernando Zambia
É um pouco enfadonho iniciar um escrito como este, pois quase sempre os criadores nos sentimos que temos absoluta razão naquilo que pensamos e executamos, ou melhor, naquilo que idealizamos e levamos à prática. Com o passo do tempo aprendi que a Arte não é para nada subjetiva como a maioria pensa. Qualquer Arte tem um componente fisiológico inerente a ela, a construção consciente de uma estrutura, seja ela em versos, em letras musicais, em corpos, vozes ou cores.
Isto me faz pensar em que dessa maneira criamos através do tempo uma forma de ancorar a construção da obra de arte dentro de padrões e estruturas que vão demarcando o caminho que deve ser trilhado para sua elaboração. Digamos que, especificamente no teatro, na maioria dos criadores, se não existe um texto que paute as ideias centrais, os objetivos e justificativas que levam a construir a peça teatral, então para essa maioria começa a ser discutível que um resultado em semelhantes condições chegue a ser verdadeiramente uma obra da arte teatral.
A minha experiência me induz a me deixar levar pela intuição, pela pulsão do momento criativo, não sentindo medo algum em me deixar arrastar pelo processo; às vezes não possuo um texto predefinido, ou uma ideia concreta, e isso permite que eu me surpreenda pelo processo no percurso do trabalho.
Nos processos anteriores, junto aos meus atores, construímos nossos espetáculos a partir de clássicos, sem a pretensão de manter as estruturas formais dos textos. Mas estava claro que existiam textos teatrais que guiavam a nossa construção das peças.
No caso de Corpus Perpétuo me atrevo a dizer que não temos noção de como o espetáculo vai ser construído. De como as palavras serão ditas sem pronunciar o verbo. De como será costurada a representação desta performance que não precisa ser entendida, mas ao mesmo tempo precisa ser mágica, cativante e envolver ao espectador-atuante. Estamos no meio de um processo bem complicado, mas sem medos nos enfrentamos ao trabalho diário de treinamentos, estudos profundos de várias obras. Não ficamos presos a Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino ou às obras de Tadeusz Kantor, a partir dos quais iniciamos nosso trabalho. Viajamos dia após dia nos apoiando em novas experiências.
Faz uns quatro dias viajei a São Paulo, descobri lá dois livros que me interessaram, um de Samuel Beckett que desconhecia e outro de Albert Camus. Estou lendo os dois. Ambos estão relacionados de forma fortuita com nosso trabalho e as ideias que perseguimos. Então podemos somar criterios e enriquecer o nosso trabalho com eles.
Penso que a arte teatral contemporânea não exige mais um diretor que comande os atores a partir de fórmulas já prestablecidas. Os atores devem ser poetas, sonhadores, criadores, que precisam cultivar o seu corpo e o seu intelecto e a partir desse universo muito particular de cada um começar a propor a partir de pequenos impulsos, são como pequenos partos, que surgem de contrações que ao mesmo tempo surgem de acúmulo de conhecimento geral.
Falo muito para meus atores que é necessário preencher e arrumar sempre nossas bagagens, as bagagens ou malas são nossos espaços para o conhecimento, aquelas malas que levamos conosco nas nossas viagens da criação, aqueles conhecimentos que se adquirem organicamente e os outros que são adquiridos de maneira voluntaria. Ambos são de uma importância vital na nossa construção como artistas. Essas bagagens não ocupam espaço e ao mesmo tempo nunca acabam ficando cheias. Precisamos sempre carregar com elas. Também pergunto para eles o por que da preguiça em preencher esses espaços vazios?
Acho que há uma falta de instrução nos atores da necessidade de adquirir intelecto. O ator de alguma maneira deve ser um intelectual, pois ele gera conhecimentos e dialoga com eles, pelo menos o ator do qual eu falo e pretendo formar nos meus laboratórios.
