Arquivo de novembro de 2009

Corpus Perpétuo-número 1/por Luis Alonso

sexta-feira, 27 de novembro de 2009
training oco teatro / Foto.Fernando Zambia

training oco teatro / foto. Fernando Zambia

É um pouco enfadonho iniciar um escrito como este, pois quase sempre os criadores nos sentimos que temos absoluta razão naquilo que pensamos e executamos, ou melhor,  naquilo que idealizamos e levamos à prática. Com o passo do tempo aprendi que a Arte não é para nada subjetiva como a maioria pensa. Qualquer Arte tem um componente fisiológico inerente a ela, a construção consciente de uma estrutura, seja ela em versos, em letras musicais, em corpos, vozes ou cores.

Isto me faz pensar em que dessa maneira criamos através do tempo uma forma de ancorar a construção da obra de arte dentro de padrões e estruturas que vão demarcando o caminho que deve ser trilhado para sua elaboração. Digamos que, especificamente no teatro, na maioria dos criadores, se não existe um texto que paute as ideias centrais, os objetivos e justificativas que levam a construir a peça teatral, então para essa maioria começa a ser discutível que um resultado em semelhantes condições chegue a ser verdadeiramente uma obra da arte teatral.

A minha experiência me induz a me deixar levar pela intuição, pela pulsão do momento criativo, não sentindo medo algum em me deixar arrastar pelo processo; às vezes não possuo um texto predefinido, ou uma ideia concreta, e isso permite que eu me surpreenda pelo processo no percurso do trabalho.

Nos processos anteriores, junto aos meus atores, construímos nossos espetáculos a partir de clássicos, sem a pretensão de manter as estruturas formais dos textos. Mas estava claro que existiam textos teatrais que guiavam a nossa construção das peças.

No caso de Corpus Perpétuo me atrevo a dizer que não temos noção de como o espetáculo vai ser construído. De como as palavras serão ditas sem pronunciar o verbo. De como será costurada a representação desta performance que não precisa ser entendida, mas ao mesmo tempo precisa ser mágica, cativante e envolver ao espectador-atuante. Estamos no meio de um processo bem complicado, mas sem medos nos enfrentamos ao trabalho diário de treinamentos, estudos profundos de várias obras. Não ficamos presos a Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino ou às obras de Tadeusz Kantor, a partir dos quais iniciamos nosso trabalho. Viajamos dia após dia nos apoiando em novas experiências.

Faz uns quatro dias viajei a São Paulo, descobri lá dois livros que me interessaram, um de Samuel Beckett que desconhecia e outro de Albert Camus. Estou lendo os dois. Ambos estão relacionados de forma fortuita com nosso trabalho e as ideias que perseguimos. Então podemos somar criterios e enriquecer o nosso trabalho com eles.

Penso que a arte teatral contemporânea não exige mais um diretor que comande os atores a partir de fórmulas já prestablecidas. Os atores devem ser poetas, sonhadores, criadores, que precisam cultivar o seu corpo e o seu intelecto e a partir desse universo muito particular de cada um começar a propor a partir de pequenos impulsos, são como pequenos partos, que surgem de contrações que ao mesmo tempo surgem de acúmulo de conhecimento geral.

Falo muito para meus atores que é necessário preencher e arrumar sempre nossas bagagens, as bagagens ou malas  são nossos espaços para o conhecimento, aquelas malas que levamos conosco nas nossas viagens da criação, aqueles conhecimentos que se adquirem organicamente e os outros que são adquiridos de maneira voluntaria. Ambos são de uma importância vital na nossa construção como artistas. Essas bagagens não ocupam espaço e ao mesmo tempo nunca acabam ficando cheias. Precisamos sempre carregar com elas. Também pergunto para eles o por que da preguiça em preencher esses espaços vazios?

Acho que há uma falta de instrução nos atores da necessidade de adquirir intelecto. O ator de alguma maneira deve ser um intelectual, pois ele gera conhecimentos e dialoga com eles, pelo menos o ator do qual eu falo e pretendo formar nos meus laboratórios.

Quanto custa ser um artista!?/Por Luis Alonso

quinta-feira, 26 de novembro de 2009
O mito de Sísifo

O mito de Sísifo

Os que estão de fora veem mais daqueles que estão dentro. Essa é a questão!

Eu me declaro alguém que chegou de fora e já estou dentro dessa classe “autossustentável” denominada Artistas do Brasil, em especial Artistas da Bahia. Há uma dualidade que tenho desenvolvido a qual me permite estar dentro e ver de fora. Por isso me pergunto: quanto custa ser artista na Bahia?

Fazendo um levantamento pela quantidade de horas que eu permaneço frente ao computador, feito um promoter, produzer, designer, e outros títulos que eu mesmo me inventei , posso dizer que o menos que eu faço é Arte. Fico aproximadamente oito horas do meu dia parafusando projetos, correndo atrás de editais, reorganizando o nosso blog e site, pensando em ações que nos ajudem a subsistir como coletivo, respondendo diligências do Fundo de Cultura e da FUNCEB, etc, etc, etc.

A realidade de cada quem é muito particular pois é o indivíduo que elege qual caminho quer seguir na estrada da sua vida sendo a sua relação com o entorno aquilo que determine o seu lugar na sociedade. No nosso caso, me refiro aos artistas, é como se nós não existíssemos e nos empenhássemos em sermos vistos por alguém, sei lá, algum guru, ou algum clarividente.

Os altos políticos não nos olham, os prefeitos não nos olham, as Secretarias de Cultura fazem o que podem para tentar se curar da miopia. Não é menos certo de que faz uns dois anos, no estado da Bahia, nós temos pelo menos a oportunidade de concorrer a editais, ganhar prêmios em dinheiro. Ainda que depois, como cavalos desaforados, tenhamos que correr atrás das liberações, das cartas de alforria que ganhou o nosso bendito dinheiro dependente de um altíssimo senhor chamado procurador.

Nós precisamos criar com urgência algum mecanismo que nos dê a oportunidade de ficarmos na nossa criação, sem necessidade de investir mais da metade do nosso tempo-ativo-diário na elaboração de projetos ou imersos em leis de incentivo.

O nosso grupo de teatro, por exemplo, trabalha num município baiano chamado Lauro de Freitas, então somos lauro-freitenses, mas qual é o investimento do governo de Lauro de Freitas na área cultural? Shows Religiosos, num país que se autodenomina Estado Laico? Daniela Mercury na Praça Matriz? Micareta? São João? (Observem que todas as ações da cultura em Lauro de Freitas estão centradas em projetos de grande número de pessoas, quer dizer popular, quer dizer voto. Claro, a cultura popular não questiona o Poder nem enfrenta o estado das coisas. É a nossa arte a que coloca em xaque e discute com os “Poderosos”) Não entendemos por que o dinheiro público não é utilizado em projetos micro culturais, aqueles que realmente semeiam e construem um ser preparado para a vida? O governo de Lauro de Freitas não faz nada pela cultura, absolutamente nada. A maquinaria política não permite. Mas a nossa questão não é a maquinaria política, é ver resultados. A maquinaria política é problema de quem a criou, sustenta e alimenta.

Quanto custa ser um artista!?

Esta pergunta me lembra muito as questões de Camus quando desenvolvia a sua filosofia do absurdo, o absurdo da vida do homem que impõe revolta, algo explicável assim como o mito de Sísifo, de quem ele se faz sedutor-questionador. Sísifo sobe a montanha empurrando uma pedra até o topo, para deixá-la cair e vê-la rodar novamente. Todos os dias repete a tarefa. Prefere antes de morrer permanecer vivo nessa eterna ação fútil. Castigo dos Deuses por desafiá-los.

Ainda que a nossa diária-ação-asmática pareça menos fútil que a de Sísifo, ela é o preço que nós pagamos por sermos artistas, um castigo por absurdamente elegermos sê-lo.