A atriz Diana Ramos, me surpreendeu com esta meticulosa ordem das coisas que Oco Teatro Laboratório conseguiu fazer no ano 2009. E eu ciente de que a gente precisa trabalhar mais. Eta preguiça! É quase que uma receita para aqueles que não sabemos o que fazer durante o ano. É bom guardar essas lembranças administrativas da Diana.
Aí vai a receita para aqueles que queiram ter trabalho! E ela disse que ainda falta!. Viu!?

Janeiro
Temporada de Branca. Sala do Coro TCA
Luis Alberto no Janeiro de Grandes Espetáculos em Recife.
Participação de Diana Ramos e Rafael Magalhães no show Pierrot e Colombina – Vânia Abreu e Marcelo Quintanilha.
Viagem de Luis Alberto para Festival de Teatro no Chile – “Santiago a Mil”.
Fevereiro
Temporada de Os Sonhos de Segismundo. Sala do Coro TCA.
Março
Viagem ao Peru. 23/03 a 02/04/2009
31/03 apresentação na Casa Yuyachkani .
Abril
Indicações do Prêmio Braskem: Melhor espetáculo “Os Sonhos de Segismundo” e Atriz Coadjuvante “Diana Ramos”.
Discutir Cidades Invisíveis. Ítalo Calvino
Discutir Leonardo Da Vinci.
Maio
Festival de Ipitanga. Apresentação de “Os Sonhos de Segismundo”.
Fim dos estudos Leonardo da Vinci
Estudos Charles Darwin
Estudos F. Nietzsche
Ajustes finais para o exercício de montagem dos textos criados a partir de imagens de da Vinci
Preparação para o trabalho prático
Viagem de Luis Alberto e Rafael Magalhães para o encontro da Ponte dos Ventos. Odin Teatret – Dinamarca.
25 de maio a 19 de junho (trabalho prático com a montagem dos textos dirigidos pelos atores/diretores)
Junho
Ajustes e ensaios das montagens resultantes das pesquisas com o texto de cada ator.
Julho
Mostra das cenas para Luis Alberto.
Agosto
Ensaios de Segismundo e Cenas experimentais.
Participação de Diana Ramos e Rafael Magalhães no Show Pierrot e Colombina. Teatro FECAP. SP.
Setembro
FILTE – Festival Latino Americano de Teatro da Bahia.
Demonstração de trabalho no FILTE no Seminário de Poéticas e Políticas das Américas.
Reunião de avaliação FILTE.
Outubro
Festival Experimental FITEQ-G. Equador.
Viagem de Luis Alberto ao Festival Ibero-Americano de Teatro de Cádiz
Temporada Teatro Monet. Os sonhos de Segismundo.
Participação de Luis Alberto no encontro de diretores teatrais no XXIV Festival Ibero-americano de Teatro de Cádiz. Espanha.
Lançamento da Coleção Dramaturgia Latino-Americana. Vol. I Texto: Neva, de Guillermo Calderón. Fiac.
Novembro
Training
Dezembro
Training

ESTUDOS E EXPERIMENTAÇÕES
Desde o início do ano já tínhamos as propostas de estudos para o decorrer do mesmo, os indicados para dissecá-los eram: Ítalo Calvino com a obra Cidades Invisíveis, Charles Darwin – vida e obra, Leonardo Da Vinci – vida e obra e Friedrich Nietzsche com Ecce Homo.
Sobre as Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino, posso dizer do prazer que tive com a leitura, parecendo que a cada cidade era como se eu desvendasse junto com Marco Polo aquele lugar.
“Como historietas avulsas a qualquer enredo, elas vão se somando e tecendo paulatinamente um fio que atravessa todo o romance da primeira a última página: a fluidez de um mundo que se constitui através da audição, do odor, do paladar e de um olhar que não é o ver, mas o emergir na coisa, o mirar rosiano. Cada cidade porta uma revelação, mundos utópicos que são somente descortinados quando deitamos nosso olhar sobre ínfimos detalhes, à cata das ambigüidades. A descrição espacial da cidade envolvida nessa esfera de ambigüidade é representativa da condição humana, das oscilações pelas quais o homem passa.” (ciberliteratura.com.br)
As cidades invisíveis estavam dentro de mim, cada um delas trazia consigo uma rua por onde já estive no passado, lembranças ou sonhos. A leitura simples, poética e atraente nos inquietava a tentar desvendar os segredos das cidades e, nas discussões com o grupo era interessante ver como a “cidade” de cada um brotava de nossas lembranças e de nossas histórias. Eram elas:
1 “As cidades e o nome” – identidade e sentido de lugar; 2 – “As cidades e a memória” – a presença do sítio e a influência do passado; 3 “As cidades e o desejo” – a motivação inconsciente e a ação sobre a memória; 4 “As cidades e os símbolos” – a linguagem da subconsciência coletiva e a imagem da cidade; 5 “As cidades delgadas” – a busca pelo desprender da terra, a negação da imobilidade; 6 “As cidades e as trocas” – as relações entre os habitantes; 7 “As cidades e os olhos” – a visão individual e os engodos; 8 “As cidades e os mortos” – engessamento, ciclo, fim de ciclo; 9. “As cidades ocultas” – a natureza humana e sua dualidade; 10. “As cidades contínuas” – antropofagia, destruição do meio; 11. “As Cidades e o Céu” – o ideal de perfeição e o cosmos.
Sobre Charles Darwin era mais óbvio cair na teoria da evolução das espécies por seleção natural, e ver que os mais fortes perpetuam a espécie. No entanto ter Darwin como exemplo de um estudioso persistente. As discussões deram margem a contextos sócio-culturais de “seleção natural” ou “predisposição genética” para caráter e personalidade.
Leonardo da Vinci foi, até então, o mais apaixonante a ser estudado. Sua vida e obra me revelaram a idéia de “Homem Universal”, ou seja, alguém que transita pelo conhecimento profundo e diversamente. Fiz uma analogia ao trabalho do ator, necessitando dominar uma gama de possibilidades de atuações, transitando em funções e se munindo de um repertório de qualidades à disposição de suas criações. Dentre as várias ciências aprofundadas por Da Vinci, as invenções e as pinturas foram o recorte maior para nossas pesquisas, serviram de inspiração para nossa grande tarefa:
1) Cada ator deveria elaborar, a partir de uma obra de Da Vinci, uma história, livre de estilo, a partir da imagem.
2) A história deveria ser curta contendo a estrutura essencial: começo, meio e fim (independendo de ordem cronológica). Fizemos uma primeira leitura para o diretor e este foi dando encaminhamentos dramatúrgicos aos escritos. Depois fizemos o trabalho com acompanhamento individual para estruturar os contos. Em certo momento passamos a socializar as histórias no grupo buscando: conflito, personagens e funções dentro da trama, moral da história e erro trágico do personagem, caso houvesse.
3) Agora tínhamos a tarefa de encenar o que chamei de contos com o grupo, cada ator/diretor poderia usar quantos atores do grupo quisesse, mas não poderia estar em sua própria cena. Tivemos, antes da prática, que expor a proposta de encenação possível, o que nos levou a pensar a cena em sua amplitude. Para nós foi o primeiro exercício autônomo de direção dentro do grupo e a metodologia usada pelo diretor para que chegássemos a tal ponto me deixou tranqüila, encarando como um exercício de direção e ensinando na prática a pensar teatro. Mais uma informação sobre a montagem é que não deveria ter texto falado.
4) Cada ator/diretor escolheu seus atores e escalonamos os dias de trabalho de cada grupo. A metodologia de montagem era livre, era necessário um acordo antecipado: confiar plenamente no colega diretor, sem questionamentos e críticas, assim poderíamos permitir que sua criatividade não fosse cerceada.
Eu não estava em nenhuma cena, mas quis dirigir todo o elenco presente.
Escolhi a invenção “A máquina do silêncio” de Leonardo da Vinci e meu conto ganhou o título de “A procura do silêncio inacabado”, minha encenação posteriormente foi chamada de “Silêncio Reverso”. Era a história de um homem em busca do silêncio tentando reaprender a ouvir o cotidiano. Como eu não poderia usar texto falado fui em busca de imagens na internet que pudessem nortear a poética das cenas, os temas eram: solidão, silêncio, vazio, loucura e aquelas que surgiram do próprio texto. Neste momento minha pesquisa de imagens vinha pela proposta estética das artes plásticas, da cena como apreciação de uma arte visual, como elementos de equilíbrio, velocidades, ritmos, e corpos que expressassem sensações nas cores pretas e brancas. Contextualizar na cena a situação sócio-política do país era pra mim uma necessidade de demonstrar minha indignação através do meu instrumento de luta, o teatro. Ao menos como exercício era uma oportunidade de amadurecer idéias e como atriz/encenadora era um meio de sentir-me capaz de realizar uma composição cênica.
5) Mostramos os resultados para o diretor e cada cena foi ganhando ajustes como parte de um processo de lapidação.

AS VIAGENS
Ir ao Peru em março para apresentação de Os sonhos de Segismundo em Lima foi meu primeiro contato com a América Latina fora do Brasil. Pisar num solo histórico de lutas políticas e resistências culturais na construção de um povo foi um passo sem volta para a ignorância. Fazemos no Brasil e talvez ainda mais em Salvador, um teatro pouco preocupado com as questões sócio-políticas (com exceções pontuais de grupos que se manifestam neste sentido), não me refiro neste momento a teatro panfletário ou partidário. Mas pensar o teatro como uma forma de interferir ou dialogar no seu contexto político verdadeiramente.
Tivemos muitos contratempos de produção local em Lima e os planos de conhecer Cuzco e Machu Piccho foram abortados, era lá que pretendíamos renovar nosso contato com a divina natureza de nossa origem latino-americana, não foi possível. Ministramos duas oficinas de teatro na Escuela Nacional Superior de Arte Dramático com demonstrações dos treinamentos do Oco Teatro. Era um público jovem e ávido, por diversas vezes senti vontade de ficar ali mesmo em Lima, me procurando, me identificando.
No entanto, ganhamos um belo presente, nos apresentarmos na Casa Yuyachkani e estreitar mais uma vez os laços com este grupo de tanta importância no teatro político latino. Tivemos uma sessão com casa cheia e a dispensa de público enorme que não se pôde acomodar dentro do teatro. O público peruano nos recebeu e nos acolheu de maneira muito generosa, com todos os embates causados pela língua tivemos a total compreensão cênica do espetáculo, as imagens deram ao público seu deleite e a comunhão aconteceu, o encontro foi possível através do teatro.
Em outubro, no Equador, nos encontramos novamente com a América Latina fora do Brasil, com amigos de outros grupos como Yuyachkani e Callejón del Agua , Buendía e com muito orgulho conhecemos Flora Lauten, diretora do Buendía. E considero importante no teatro todos aqueles que nos fazem mudar de alguma forma, que nos religam ao sentido de fazê-lo. Ver uma demonstração de trabalho do Yuyachkani no Teatro Prometeo em Quito foi, para mim, um novo momento de mudança e de crescimento, saí mais apaixonada pelo meu grupo, o Oco Teatro, e com desejo de prosperar sob a condição de muito trabalho e investigação, pois não se procede de outra forma. Ver o teatro de outros países é uma oportunidade de avaliar o seu próprio e reconhecer que, somos no Brasil, muito inventivos e criativos, não precisamos canalizar nossas bússolas criativas ao que está sendo feito lá fora, com referências européias, e não há nesse comentário nenhum ranço de colonizado, há apenas a constatação de que somos matéria prima o suficiente para nossas criações. Igualmente em Guayaquil fomos generosamente recebidos pelo público e acolhidos por uma platéia de aproximadamente 700 pessoas. O suficiente para voltarmos para o Brasil com a sensação de dever cumprido e ainda muita estrada para galgar.
Ser grupo é também levar seu nome por onde quer que estejamos e no que fazemos, às vezes perdemos o sobrenome e ao invés de Diana Ramos passo a ser Diana do Oco, é engraçado e real. Por isso, também neste ano levamos o nome do grupo em outras missões: Dinamarca, São Paulo, Chile, Espanha, Salvador, Lauro de Freitas… e trouxemos conosco também o nome de cada grupo que foi escrevendo algo em nossa história: Malayerba, Albanta, Candelária, Groove Estúdio, Bagaceira, Avante, Ciervo Encantado e muitos outros que se encontraram no II Festival Latino-Americano de Teatro da Bahia 2009.
O ano do trabalho

Me descobri atuando em três improvisações. Começo a despertar um sentimento de descoberta que me completa como profissional de teatro. Quando me perguntam o que faço, respondo sempre que faço parte de um grupo de teatro – percebi que isso é muito vago em relação à atividade que a pessoa pode exercer dentro de um grupo, e eu sempre quis ter mais, e ser mais também, ainda que isso vá contra a minha natureza tímida. Fazer parte das improvisações me colocou dentro de um processo investigativo de atuar que estava muito inconsciente e primário. Me fez repensar toda uma não formação de teatro que tenho (Uma formação bastante intuitiva que me fazia ver o teatro como objeto chapado e plano como papel) E também me fez mudar alguns planos, abrangendo outras áreas da minha ambição profissional. 

