Por Tiago Chaves
Quando ainda estava apenas nos planos de se fazer as viagens eu estava bastante empolgado em poder sair da minha cidade e ir percorrer outros lugares observando as maneiras, os jeitos e a cultura de outros estados que nos são ligados pela região nordeste. Não sabia bem ao certo o que encontrar, que esperar. Por vezes pensava que seriam lugares menos desenvolvidos culturalmente – admito que era um pensamento preconceituoso e procurava logo dissipar essas idéias. Era preciso viver logo a experiência
O primeiro estado foi a Paraíba, na cidade de João Pessoa. Uma cidade que me tem algumas lembranças por ocasião de uma visita há quase 10 anos atrás. Chegamos para integrar o nosso projeto de circulação junto à Mostra de Grupo promovida pelo grupo Ser Tão Teatro. Passamos os primeiros três dias realizando oficinas. A receptividade era boa por parte dos participantes, que mostravam disponibilidade e boa técnica. As apresentações são marcadas pela falta de estrutura física. O lugar, apesar de ser bem interessante quanto espaço, não fornecia um teatro bem equipado e em boas condições – nada que não pudesse ser resolvido. Foram apresentações com um excelente publico, que interagia com o espetáculo.
Logo depois foram momentos quase livres de assistir espetáculos de grupos conhecidos nosso como o Bagaceira, do Ceará, e o Clowns de Shakespeare do Rio Grande do Norte. Fizemos uma demonstração de trabalho para uma platéia de mais ou menos cinqüenta pessoas; estudantes, artistas. Houve debate e discussão bem aproveitado. Voltamos para Salvador com essa etapa cumprida e com mais amigos na lista.
Rumamos para Maceió. Logo começamos a nos interar sobre as condições do teatro no estado de Alagoas. Ficamos localizados na orla da cidade, o que de certa forma nos colocou no limite entre trabalho e descanso, sem que um atrapalhasse o outro. A localização do teatro era perto do hotel. A impressão que eu tinha dos participantes das oficinas era de pessoas com vontade de participar, aprender – dando uma imagem de que a cidade não oferecia tanta formação técnica aos profissionais do local. Não tivemos oportunidade de ver qualquer mostra de trabalho de algum grupo local. Quando fomos fazer a demostração de trabalho, porém, pude sentir que a universidade tinha uma atuação interessante na formação da classe artística da cidade. Foi uma demonstração marcada pela mudança de sala por falta de condições – mas também por discussão de debate bem atuante.
O teatro do SESI, apesar de bem estruturado, não tinha os equipamentos adequados e a produção foi obrigada a alugar iluminação. Os dois espetáculo tiveram um público (A meu ver!) razoável. A apresentação de Segismundo foi bem empolgante e senti que rolava uma boa energia. A mesma sensação em Branca – já que nessa temporada eu fazia parte do coro cantando as músicas. O fato de ter de arrumar todo o material com pressa para viajar de madrugada foi um ponto que me deixou um pouco cansado.
O Piauí esperava com um sabor de saudade. Era uma viagem especial e espera por mim, que tenho no estado uma forte ligação, apesar de ser a primeira vez a visitá-lo. Não sabia bem ao certo o que esperar, mas esperava sabendo que nada podia derrubar a ligação antropológica que tenho com Teresina, já que minha mãe nasceu no Piauí. Mesmo indo pela primeira vez era como se retornasse a um lugar conhecido pelas lembranças contada pela minha mãe. Olhava o lugar e as pessoas procurando reconhecer traços que me ligavam e me levavam a estar ali. Chegamos no meio da noite de segunda-feira e na manhã de terça já estávamos em pé para começar a executar o projeto. O publico participante não foi tão participativo como nos outros estados. Não esperava tanto, nem tão pouco. Mas Piauí me surpreendeu pela estrutura cultural que a cidade oferece. Muito museu, muito centro de artesanato, muito lugar onde você pode observar uma arte – uma escultura ali, outro desenho aqui.
O teatro ficava numa parte afastada do centro – bem afasta – num bairro chamado Dirceu. A principio me senti incomodado por não estar bem localizado. Espera estar no centro da cidade onde o acesso seria mais fácil e pudesse estar no centro das atenções das atividades da cidade. Mas depois senti que a periferia merece também uma oportunidade de ver e ter acesso a um teatro de qualidade. Tá certo que não encheu. Tá certo que foi bem vazio. Mas se dentre as 10 pessoas que assistiram teve (talvez) 2 ou 3 pessoas do bairro que foram por que teve acesso fácil ao espetáculo, sem ter que se deslocar ao centro da cidade para poder assistir e participar de uma boa programação cultural – então viva!! Acho importante.
Antes teve a demonstração de trabalho. Um detalhe a parte. Foi uma demonstração marcada pelo cansaço, calor e energia. A Dança dos Objetos foi tão forte – uma improvisação marcada pela viagem sonora coletiva e pela jogo do corpo com o objeto. Minhas mãos doíam ao fim tamanha era a força e vontade em seguir livremente dentro da proposta – foi algo bem diferente do que estava realizando nas outras demonstrações – falando em termos de sensações.
Enfim, era hora de arrumar as malas e se preparar pra voltar
Além das experiências de ganhos, o projeto de circulação foi marcada pela experiência de perdas.
Na volta de João Pessoa recebi a noticia da morte do Poeta Damário Dacruz. Um vazio para quem na porta da geladeira tem um pôster com uma poesia dele, relembrando todo dia a beleza em apenas estar ali presente junta a pessoas tão queridas.
Quando voltamos de Maceió lemos a notícia do falecimento de Wilson Melo. Um mito pela simpatia e bom humor no teatro baiano. Participei algumas vezes de rodas de conversas e embriagues em que estava o grande Mestre - que ria e conversava comigo, me contando histórias e tomando toda a atenção da festa.
O Piauí foi uma viagem de reflexão e estudo. Fui lendo alguns textos para pesquisa de um trabalho. Ainda que não tenha levado como autor, o Mestre Saramago era sempre lembrado e discutido, rindo até em perceber o quanto ele nos coloca a prova dos seus questionamentos e certezas. E então o mestre nos deixa sós. Senti a sua morte como se sente a morte de um ente querido. Me resguardei na saudade de saber que a polêmica e genialidade está limitada pelo nascer e morrer do velho escritor. Não fui tão bom leitor de Saramago – Mas tenho na sua figura uma fonte de certeza da quebra de paradigmas e formas que vejo como necessárias ao meu mundo. Ao mundo em que estou atualmente.
Ao ler a notícia pela internet numa sexta-feira meio nublada, depois do choque falei em voz alta no escritório de meu pai – “Adeus José!”