Por Diana Ramos
Ainda hoje estive no Facebook, alimentando meus relacionamentos a distancia, ou seja, fazendo amigos para que, quem sabe num futuro, possamos intercambiar conhecimentos e visitar suas cidades sem preocupar-me com hospedagens. Acho que todo viajante almeja conhecer muito e pagar pouco. Infelizmente, este pensamento econômico se deve ainda a questões financeiras insuficientes para carimbar passaportes quando a vontade simplesmente vier. Fui surpreendida por um contato de um rapaz argentino me perguntando sobre o Brasil, e me dizia: que coisa é o Brasil não é, então tudo é festa e podemos ter diversão a qualquer hora. Fiquei em dúvida sobre o que responder, verdade ou mentira? Mas lhe disse apenas que era mais fruto da imaginação coletiva em relação ao Brasil do que a realidade, e que somos um país de pessoas sérias. E novamente o argentino me pergunta se estamos habituados a fazer sexo a três e freqüentar orgias, que é coisa normal para nós. Respirei fundo e novamente lhe respondi que não vivemos o carnaval a vida toda, o ano todo, diferente do que pensam por aí. Que temos muitos problemas sociais, mas também muita seriedade e, ao contrário do que pensam pelo mundo, não vivemos entre macacos nas florestas com roupas carnavalescas enfiadas em nossa dignidade (na verdade parei entre macacos nas florestas). E que só se conhece um país quando se vai até ele. Todo o resto são especulações. Ainda assim, saindo em defesa do Brasil, me vi numa situação ingênua, defender uma pátria que de si mesmo si ri e deixa que a vejam pelo pior que tem. Os méritos de um país se divulgam em proporções muito menores do que suas mazelas. Esta provocação argentina que impeliu a escrever sobre as cidades por onde estive recentemente (nós do Oco Teatro estivemos em viagens pelas cidades de João Pessoa – PB, Maceió – AL e Teresina – PI). Lembro-me de, na última viagem, em Teresina, ter me aventurado a pegar um ônibus e fazer um circular pela cidade de Timon, cidade maranhense em fronteira com Teresina e divididas pelo Rio Parnaíba. Neste breve tour de ônibus coletivo, pensei sobre a pouca atrativa cidade de Timon: há cidades para viver, há cidades para desejar viver e há cidades que apenas são parte do filme que gravamos na cabeça por tê-las passado sem compromisso nem vestígios. E se perguntarem se conheci estas cidades lhes direi que não, apenas estive entre elas pelo curtíssimo período de uma semana. É impossível dizer que se conhece uma cidade quando se está hospedado num belo hotel, num bairro central com pessoas à sua disposição para facilitar o trabalho da qual você está ali para fazer. Posso relatar aqui todo o prazer destas vivências, mas não posso descrever verdadeiramente estas cidades. A minha impressão de viajante e artista me fez perceber as cidades de maneira mais sensível, o que não quer dizer que tenha verdades absolutas sobre seu povo ou cultura.
O mais impressionante sobre elas é que, depois de um tempo parece que os rostos se tornam conhecidos, como se encontrássemos em suas ruas, alguém de rosto familiar, talvez pela necessidade de sentir que somos acolhidos por aqueles do qual nunca vimos antes. As cidades têm sotaques confortáveis, gírias particulares, timbres característicos e vozes que, de ponta a ponta do país clamam pelas mesmas coisas: direitos, cultura, lazer, dignidade para seu povo e para seus artistas. Transitar pelo teatro feito nas cidades nos diz de que valor se dá a arte e àqueles que a fazem. A carência de leis de incentivo, editais, propostas governamentais e empresas privadas dispostas a patrocinar a cultura e especificamente o teatro ganha contornos muito parecidos em toda parte, me parece que ainda mais nos nossos pobres Estados nordestinos. A desigualdade social é latente e nos espera desde a rodoviária, aeroporto ou nas portas dos hotéis à pedida de cafés, almoços e jantas. E, de quem é a responsabilidade? Qual a função do artista e de seu teatro?
É preciso aprender a não subjugar o conhecimento presente nos outros que acreditamos que, por estarem em cidades em que a mídia não dá importância, situadas fora dos eixos televisivos ou de menos representatividade nas regiões altas dos pontos cardeais há mais ignorância ou, somos nós “os de fora” aqueles que trazem o novo. Ledo engano, o conhecimento produzido nestas cidades é muito particular e ao mesmo tempo universal, é preciso transitá-las e vivê-las para traduzi-las.
“No interior da grande cidade de todos está a cidade pequena em que realmente vivemos.” (José Saramago)