O ano do trabalho
O ano de 2009 se mostrou bastante produtivo para o Oco Teatro Laboratório.
Depois de estrear Os Sonhos de Segismundo com uma temporada em novembro de 2008, o grupo produziu uma temporada dos dois espetáculos em fevereiro de 2009, o que parece não ter sido bastante vantajoso em relação a publico e questões financeiras. O fato de ser antes do carnaval de Salvador e no meio do verão da Bahia fez com que as apresentações tivessem um publico bastante reduzido.
Depois da temporada, continuou os trabalhos de treinamentos e ensaios de cena para a primeira viagem de Os sonhos de Segismundo. O mês de março foi praticamente para organização para a viagem ao Peru, onde o Oco Teatro faria o espetáculo em comemoração ao Dia Internacional do Teatro. Além disso estava programado a realização de cursos ministradas por Rafael Magalhães e Luis Alberto. Depois de uma viagem relativamente rápida chegamos em Lima (Capital) por volta de 1:00 da tarde do dia 23 de março. O que era pra ser um trabalho com questões previamente resolvidas acabou se tornando um jogo de espera e paciência, pois o produtor responsável se mostrou inexperiente (Apesar da boa vontade). A apresentação marcada para o dia 27 acabou sendo cancelada por falta de condições técnicas e todos estavam sentidos em não realizar a apresentação.
Passamos bons momentos juntos, sem grandes responsabilidades profissionais. Pudemos sair em grupo e estreitar laços de carinho e amizade vividos em momentos de descontração e passeio. Procurei visitar museus (os que tivessem entrada gratuita) e visitar monumentos, praças. Participamos de uma passeata artística tocando alfaias ao lado de diabos, demônios, estudantes que tocavam uma caixinha engraçada e bonecos gigantes que andavam pelo meio do povo.
Nesse meio tempo em que chegamos tivemos vários encontros com amigos do grupo Peruano Yuyachkani. Fomos assistir a um espetáculo deles chamado “O Ultimo ensaio” que me fez questionar sobre alguns dogmas que eu tinha com relação ao teatro. Cito o Yuyachkani por causa da sua grande disponibilidade em nos oferecer a sua sede para “Segismundo” se apresentar. Com grande correria e uma produção feita por Rafael Magalhães, nos apresentamos no dia 31 de Março. Um espetáculo marcado por emoções e energias. A sala lotada via Segismundo se desenrolar na sua narrativa, e antes mesmo de começar a “função” já havia comentários sobre uma possível sessão extra, o que não se realizou no final pela total entrega de todos e condições técnicas do espaço, que sofria com a sobrecarga de equipamento de iluminação. Ao final todos estavam emocionados, cansados e felizes com a apresentação. Eu, que apenas toco instrumentos, fiquei rouco – situação que não tinha acontecido nas apresentações anteriores. No dia seguinte embarcávamos para o Brasil.
O mês de abril foi marcado pelo inicio do processo do novo espetáculo, ainda sem uma proposta concreta foi definido alguns livros para ler, entre eles “As Cidades Invisíveis” de Ítalo Calvino. Começamos os estudos e discussões. Começamos a estudar também sobre Leonardo Da Vince e Darwin. Sempre com debates e discussões.

Maio Segismundo se apresenta no Festival Ipitanga de Teatro. Uma apresentação marcada por polêmica antes, durante e depois da apresentação.
Quase no final de Maio Luis Alberto e Rafael Magalhães viajam a Dinamarca para uma temporada de quase um mês fora. Luis nos deixa com um exercício.
O exercício é o seguinte: temos que escolher um desenho de Leonardo Da Vince, e inspirado nesse desenho fazer um conto narrativo. Desse conto nós extraímos algumas informações como objetivo, justificativa do diretor, super-objetivo e montamos uma cena com alguns atores que escolhemos. A cena deve ter um mínimo de 15 minutos. Nosso exercício é apresentar uma improvisação com bases nesse processo. Passamos o mês junho mergulhado nesse processo.
Me descobri atuando em três improvisações. Começo a despertar um sentimento de descoberta que me completa como profissional de teatro. Quando me perguntam o que faço, respondo sempre que faço parte de um grupo de teatro – percebi que isso é muito vago em relação à atividade que a pessoa pode exercer dentro de um grupo, e eu sempre quis ter mais, e ser mais também, ainda que isso vá contra a minha natureza tímida. Fazer parte das improvisações me colocou dentro de um processo investigativo de atuar que estava muito inconsciente e primário. Me fez repensar toda uma não formação de teatro que tenho (Uma formação bastante intuitiva que me fazia ver o teatro como objeto chapado e plano como papel) E também me fez mudar alguns planos, abrangendo outras áreas da minha ambição profissional.
Depois de apresentar as cenas, Luis passou a trabalhar em algumas delas. Continuamos com os treinamentos
Seguimos o mês de agosto com os trabalhos normais mais as preparações para o Festival Latino Americano – que acontece em setembro.
O festival mobiliza a todos do grupo. Todos se tornam disponíveis e o evento ocorre razoavelmente dentro do planejando. A importância que o Festival tem para o grupo é a relação com os outros grupos da Latino-America. Uma reunião de alguns dos mais importantes “fazedores” de teatro que nos dão uma vivência além das paredes da Bahia e do Brasil. Cada pessoa do Oco assume uma responsabilidade e o faz, às vezes da melhor maneira que pode, às vezes não. Mas tudo acaba acontecendo. “Tudo acaba bem. Não sei como isso acontece, mas acontece. É um milagre.” O festival termina com a noticia de que já temos fundos para realizar o festival de 2010. essa noticia se junta com outras de que o Oco teatro já tem projetos aprovados em editais de circulação, que nos dá uma turnê por 3 estados do nordeste com os dois espetáculos (Branca e Segismundo) e um edital ganho de formação, em que o grupo oco oferece oficinas para o município de Lauro de Freitas.
Logo que termina o festival, começamos a nos preparar para apresentar Segismundo em um festival de teatro no Equador.
Chegamos em Quito no dia 31 de outubro depois de uma longa viagem. Já sabia que seria uma viagem muito técnica, com pouco tempo para passeio ou diversão. Isso me deixou bastante animado. Não que a folga não me deixe alegre, mas o fato de estar trabalhando me envaidece e me deixa mais feliz. Tínhamos o dia 1° de folga, e já no segundo dia o grupo ia para montagem. Apresentava no dia 3 de outubro. No dia 4 viajava para Guayaquil. No dia 5 montava e no dia 6 apresentava.
“A cidade está fria e eu congelo. Sofro em subir escadas em uma atmosfera de 2800 metros acima do mar. Me sinto um picolé sem força nem pra respirar ou derreter” “Fui para o quarto que era subindo 6 lances de escadas. Parecia que meus pulmões iam estourar” (anotação da agenda – 1 de outubro de 2009).
Todas as duas apresentações foram ótimas. Acima das minhas expectativas. A platéia com uma interação surpreendente com o espetáculo, mesmo ele sendo em uma outra língua e sem apresentar legendas.

A impressão que tive do Equador é de um país bastante politizado e consciente. AS pichações nos muros e nas ruas eram manifestos de um povo que pede dignidade. Me senti excluído do resto da America do Sul por ser brasileiro e não ver um movimento de iniciativa popular. Alguma faísca que acenda um pensamento coletivo para melhorar a vida comum do próprio coletivo. Me deu um sentimento de solidão e abandono dentro do meus país. Um abandono por parte da sociedade, da população, dos meus pares, conterrâneos, da minha geração. Dizer que estamos abandonados pelos políticos é chover no molhado. Chutar cachorro morto.
Embarcamos no dia 7 de outubro e chegamos ao Brasil aproximadamente no dia 8. ver o sol, o mar e o verde do avião me fez ter alegria de voltar. Talvez os outros países da America latina sejam cinzas, e por isso as pessoas tenham mais consciência política. Talvez. É um caso para se estudar e observar muito.
Não tivemos muito tempo de descanso, pois já tinha uma temporada marcada no teatro Monet – em Vilas do Atlântico. A temporada foi uma tragédia. Sem publico e com condições técnicas apertadas. Cancelamos – aliviados – o restante da temporada. Ao final foi só uma desastrosa apresentação.
Continuamos com o processo de montagem do novo espetáculo e voamos para um espaço novo para treinar, pois o nosso estava ocupado por manifestações folclóricas (ou algo do tipo) em todo o mês de novembro. Passamos a retomar as sequencias do treinamentos.
Os projetos planejados para o segundo semestre de 2009 irão acontecer (possivelmente) no primeiro semestre de 2010. se 2009 foi um ano de trabalho, acredito que 2010 seja um ano de maiores realizações profissionais e crescimento, o que inclui reconhecimento profissional ( e principalmente financeiro).
A trajetória de 2009 me fez com que os meus estudos se tornassem menos intuitivos e fossem mais direcionados a um objetivo, ainda que esse seja um objetivo geral. Não penso como metas a serem alcançadas, mas como etapas que preciso superar para poder crescer profissionalmente.
Que venha 2010!



